Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

Dos limites

Facto: uma pessoa de vez em quando passa-se, vê tudo turvo e tem que contar de zero a dez, inverter a contagem, respirar fundo, mais fundo ainda, dar meia volta e fingir que não se passou nada. É mais ou menos isto. Ali pelo meio sai um ralhete, um abrir de olhos (leia-se esbugalhar de olhos - e aposto que do lado de lá o pensamento que corre é um "eu não tenho medo de ti") e, de vez em quando, uma palmada.

Os miúdos testam-nos os limites. É sabido, vem nos livros. Há miúdos que nascem com um post-doc em testar os limites dos pais. Não se sabe onde aprendem aquilo, mas que o fazem, fazem. E há pais que deixam a corda esticar, esticar, esticar... e depois queixam-se. Mas isso é outra conversa.

A minha está na idade de ver até onde pode ir. Já sabe que não pode ir longe, mas insiste na experimentação. Eu acho bem. De caminho aprende a gerir frustrações. Mas sabe que não tem lá grande sorte. Hoje, por exemplo. Começou logo de manhã a pedir gomas, fartinha de saber que não há gomas de manhã. Posto isto, resolveu retaliar a jogar ao cinquenta-apanha. Lembram-se do que é? Pegar num baralho de cartas e atirá-las todas ao ar. Pois foi o que ela fez. Fui à minha vida que hoje é dia de faxina. Fechou-se na sala, a choramingar. Lá apareceu ao pé de mim a dizer que não queria gomas, que não gostava de gomas, que queria que eu deitasse tudo fora. Disse-lhe que sim, que deitava (também é sabido, também vem nos livros: de vez em quando os pais têm que ceder). Chorou mais ainda, que não gostava mesmo das gomas e que queria aquilo no lixo. E voltou à sala. Passados uns minutos apareceu novamente ao pé de mim, a dizer que antes tinha estado a brincar comigo, que gostava muito de gomas. Perguntou se eu ainda tinha as gomas. Eu disse que não, que tinha feito o que ela pediu. E ela ali ficou, com olhinhos de bambi, a ruminar a coisa. Expliquei que foi ela quem pediu que deitasse as gomas fora. E acho que ela percebeu que tem que ser responsável pelos actos e palavras dela.

Cá em casa é assim: há regras e as regras são para cumprir. Já nos basta que, lá pelos quinze anos, eles descubram que andaram enganados a vida toda e que as regras, afinal, são para quebrar (mas isto também é outra conversa)...
tags:
publicado por Lénia Rufino às 16:04
link do post | comentar | ver comentários (6) | favorito
Quinta-feira, 17 de Fevereiro de 2011

Comigo foi assim

Escolhi ser mãe. Um dia, há coisa de duas décadas, resolvi que queria ser mãe. Minto. Na verdade, até acho que não escolhi ser mãe. Era incontornável: um dia haveria de ter filhos. E tive. Tinha 28 anos. Foi imprevisto, mas foi imediatamente uma certeza. Uma certeza que hoje me diz coisas como "és a mãe mais linda do mundo" e "amanhã vais-te embora desta casa já!" (e não é bipolar, imaginem se fosse!).

Não sou uma mãe cutxi-cutxi. Não dou para o peditório das mães fofinhas, cheias de tremeliques quando a cria faz alguma gracinha nova, não a fotografo todos os meses, nos dias em que faz meses (a partir dos dois anos fazem anos, não fazem meses!). Sou uma mãe que ensina mais do que brinca. Que lê, que inventa, que cria, que estimula a imaginação da infanta. Que a deixa rebolar na relva. Que a deixa cair e a ensina a levantar-se (aconteceu hoje de manhã: escorregou e foi de rabo ao chão. Eu ri-me porque a cena teve realmente graça. Ela ameaçou o choro mas acabou a rir comigo. Levantou-se e foi à vida dela). Também sou uma mãe que se passa à quinquagésima vez que ela me chama naquele tom de voz arrastado, "mãããããããiiiin". Sou a mãe que não facilita no por favor, no obrigada, no com licença, no perdão, no bom proveito. Sou a mãe que a leva a parques infantis no verão e a pseudo-parques infantis de shopings no inverno. Que lhe compra livros e mais livros. Que faz desenhos com ela. Que pinta Kittys ad nauseum. Que a deixa chapinhar nas poças de água. E que às vezes não a deixa chapinhar nas poças de água.

Depois nasceu-me um rapaz. A quem adoro dar beijos, a quem adoro aconchegar no colo, que adoro que adormeça encostado ao meu ombro. Que não sei muito bem como educar, porque ainda agora começámos. Mas hei-de desenrascar-me, tal como com ela. Hei-de descobrir o tom para falar com ele. E o que fazer com ele, para que se sinta feliz. Porque, no limite, é só isso que eu quero: que eles sejam felizes, seja lá como for.
tags:
publicado por Lénia Rufino às 19:06
link do post | comentar | ver comentários (8) | favorito

a mãe

De saltos altos, de sabrinas, de ténis, de havaianas, de pantufas ou descalça. Uma mãe com dois filhos pequenos, que trabalha, que põe uma casa a mexer, que tem um marido (logo, também é esposa), que escreve umas coisas e que tenta chegar a todo o lado e mais algum. Uma mãe igual a tantas outras.

escrever à mãe

Marianne

também aqui

not so fast
not so fast *handmade*
not so fast cooking

posts recentes

10 semanas

Cinco anos

Evoluções

4 anos

4 anos (1)

Do sono

1 filho vs 2 filhos

A dobrar

Pai

O lado B da maternidade

antes

Julho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

pesquisar

favoritos

6 truques para exterminar...

Sobrefelicidade

subscrever feeds